Inflação ajuda quem tem financiamento? A conta dos juros reais

Com os juros do carro em 26,18% ao ano e a inflação em 4,58%, o juro real ficou em 20,65% ao ano em setembro de 2026.

Os 26,18% são a média que os bancos cobraram para financiar carro, segundo o Banco Central. Os 4,58% são o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), a inflação oficial medida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nos 12 meses até setembro.

Juro real é o que sobra dos juros depois de descontar a inflação. A inflação ajuda pouco quem tem financiamento, porque a dívida ainda cresce 20,65% ao ano acima dos preços.

Pilha alta de moedas laranja apoiada sobre algumas moedas de gelo que derretem em cima de uma pincelada amarela.

Como se calcula o juro real?

Divide-se, não se subtrai. Some 1 aos juros, divida por 1 mais a inflação e tire 1 do resultado.

A divisão existe porque a inflação também age sobre os juros. O dinheiro dos juros pagos no fim do ano compra menos do que compraria hoje, como o resto da dívida.

No exemplo, 1,2618 dividido por 1,0458 dá 1,2065. Tirando o 1, ficam 0,2065, ou 20,65% ao ano.

A subtração simples daria 21,60%. A diferença parece pequena, mas cresce quando os juros e a inflação são altos.

Com inflação alta, a dívida fica mais leve?

Pouco. Em abril de 2022, o IPCA chegou a 12,13% em 12 meses, e o juro real do carro ainda era de 13,47% ao ano.

Desde março de 2011, o juro real do carro nunca ficou abaixo de 11% ao ano. O menor foi de 11,83%, em agosto de 2021, e o maior, de 23,87%, em janeiro de 2025.

Juros médios do carro medidos pelo Banco Central e IPCA do IBGE. O juro real ao ano foi calculado sobre os dois, mês a mês, desde março de 2011.
MêsInflação em 12 mesesJuro real do carro
Agosto de 20219,68%11,83%
Abril de 202212,13%13,47%
Janeiro de 20254,56%23,87%
Setembro de 20264,58%20,65%

Nem no pico da inflação ela chegou perto dos juros do carro. A dívida cresceu mais rápido que os preços em todos os meses desde março de 2011, inclusive nos 15 meses em que a inflação passou de 10%.

E no financiamento da casa?

Na casa com correção pela TR, a taxa referencial do Banco Central, o saldo sobe pela TR e paga juros por cima.

Em setembro de 2026, a taxa média da Caixa foi de 12,05% ao ano, segundo o Banco Central. A TR somou 2,00% nos 12 meses até outubro.

Juntas, as duas dão 14,29% ao ano, ou 9,29% acima da inflação. Para cada R$ 100 devidos, a dívida da casa cresce cerca de R$ 9 por ano acima dos preços. É menos que no carro, mas continua bem acima de zero.

Quando a inflação ajuda de verdade?

Quando o seu salário sobe com a inflação e a parcela é fixa. A parcela pesa um pouco menos a cada ano, mesmo que a dívida não encolha mais rápido.

Num exemplo de salário de R$ 5.000 e parcela fixa de R$ 1.552, a parcela leva 31,0% da renda no primeiro ano. Se o salário subir 4,58% por ano, ela cai para 29,7% no segundo ano e para 27,1% no quarto, o último das 48 parcelas.

É um alívio de verdade, mas pequeno perto de juros de 26,18% ao ano. E ele só existe se o salário tiver reajuste. Sem reajuste, a parcela pesa igual do primeiro ao último mês.

Vale guardar dinheiro e manter a dívida?

Quase nunca. No fim de setembro de 2026, a Selic (taxa básica de juros) estava em 13,75% ao ano, 8,77% acima da inflação. É perto da Selic que rende o Tesouro Selic, antes do imposto.

O carro cobra 20,65% acima da inflação. Cada real usado para adiantar parcelas deixa de pagar juros de 26,18% ao ano.

Guarde uma reserva para emergências, num lugar de onde dá para sacar no mesmo dia, e use o que sobra para pagar a dívida mais cara. A calculadora mostra se vale mais amortizar ou investir.